segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Interpretar construtivamente o sofrimento no trabalho

Quando a relação homem-organização do trabalho fica bloqueada, como vimos no meu último artigo, entra-se no domínio do sofrimento dos trabalhadores, sendo necessário então interpretar o modo como os trabalhadores reagem a esse sofrimento. Pois é precisamente nesta reacção ao sofrimento que nascem o mau serviço, as más relações dentro do trabalho, absentismo, doenças no trabalho, stress (e consequentemente a baixa produtividade...), que, no fundo, não são uma “doença” (que no universo cultural português muitas vezes desplicentemente se aponta aos funcionários públicos), são sim, um sintoma que nos sugere a “doença”: a falta de negociação, invenções e acções entre os trabalhadores e seus superiores sobre a própria organização do trabalho!

O indivíduo, neste caso o trabalhador, dispõe de muitas vias de descarga da sua energia. Essas vias de descarga são três: via psíquica, via motora e via visceral. A primeira é saudável, enquanto que as duas seguintes nem sempre são.

Segundo Freud (1968), tomado pela sua energia pulsional direccionada para o trabalho, um sujeito pode eventualmente produzir criatividade e envolvimento, que são representações mentais que podem, às vezes, ser suficientes para descarregar o essencial da tensão interior.
Outro sujeito não conseguirá relaxar-se por esse meio e deverá utilizar a sua musculatura: fuga, crise de raiva motora, actuação agressiva, violência, oferecendo toda uma gama de “descargas psicomotoras” (quem não viu já pessoas a “explodirem” por causa do trabalho?).

Enfim, quando a via mental e a via motora estão fora de acção, a energia pulsional não pode ser descarregada senão pela via do sistema nervoso autónomo e surgem então as doenças psicossomáticas (fadiga crónica, depressão, entre outras são geralmente mais comuns em pessoas que não “explodem” como no exemplo anterior).

Mas que tipo de trabalho ou formas de estar no/com o trabalho darão ao Homem possibilidade de não sofrer neste contexto? É deixa-lo não fazer nada? Isso é que era bom, diriam alguns! Ora bem, o psiquiatra francês Cristophe Dejours sugere uma abordagem que aproxima a Psicopatologia do Trabalho e a Ergonomia, apontando três respostas: a primeira é a possibilidade de participação na organização do trabalho; a segunda diz respeito à liberdade / autonomia no trabalhar dentro da organização; a terceira é a autêntica orientação vocacional.

O trabalho torna-se perigoso para o aparelho psíquico quando ele se opõe à sua livre actividade. Ou seja, quando as regras são impostas sem serem explicadas e negociadas abertamente e as contribuições, sugestões e participações dos trabalhadores permanecem olhadas com desconfiança! Cai assim o mito de que “os trabalhadores gostam é de não fazer nada”!

Questões / críticas / sugestões – vascoespinhalotero@hotmail.com

A Hipótese de sermos nós mesmos

Segundo a minha perspectiva, o conceito de educação poderá definir-se como o processo de construção das “hipóteses” de sermos nós mesmos!

Parece realmente um raciocínio com algum sentido. Porém, muita gente poderá dizer que se trata de algo bonito, mas muito vago, demasiado ingénuo ou mesmo sonhador nos tempos que correm, em que tudo terá de ser feito com rigor, muito rigor técnico, especialmente no que diz respeito ao mundo escolar e profissional. Aqui não se poderia, supostamente, perder tempo com abordagens gerais, cidadania, cultura, ou a vocação genuína, sob o perigo de se perder a batalha da produtividade…

Mas e se quem o diz estivesse enganado? E se dados científicos comprovassem precisamente o contrário, inclusive aqueles relativos aos indicadores de produtividade? Como diria Fernando Pessa: “e esta hein”? Há, sem dúvida, estudos sérios que deveriam ser lidos e conhecidos, especialmente por quem tem poder e baseia as suas práticas no populismo irresponsável…

Voltando ao início, educar poderá, então, ser a ajuda a que uma pessoa se exprima, que mostre ao longo da vida o seu “toque” especial e único em tudo o que faz. Isto porque ninguém faz as coisas exactamente da mesma maneira e não é por isso, de uma maneira geral, que deixa de o fazer bem! Ninguém fala, escreve, pensa, cozinha, trabalha ou canta, por exemplo, exactamente da mesma maneira e ainda bem! O incentivo e respeito por todas as nossas “inevitáveis” diferenças é sinónimo de educação por contraponto à formatação!

Tudo isto, afinal, porque o conhecimento da diversidade educa para a tolerância! Este é, possivelmente, um dos ingredientes de uma “fórmula mágica” contra a exclusão social, delinquência, racismo, senso comum baseado em estereótipos infundados, extremismo e, em parte, algum terrorismo, quer estejamos a falar em termos de contextos regionais, nacionais ou mundiais!... Assim, sem dúvidas, a diversidade socio-cultural constitui-se como a “gasolina” deste processo, sendo esta aproveitada e explorada para o nosso auto-apetrechamento humano, social, político e cultural.

Esta abordagem encara a informação, discussão e negociação construtivas como factores desenvolvimentais de consciencialização social, cultural, profissional e organizacional!

Ora, a inovação de que tanto se fala ser urgente para o desenvolvimento sustentado do nosso país tem que nascer e alimentar-se precisamente aqui! Quer estejamos a falar de estudos ou ofícios tradicionais ou de conceitos mais modernos como o de Qualidade!...

De outra forma vence a formatação sobre a educação! Regressa o isolamento das pessoas que, por sua vez, provoca o desconhecimento pela diversidade sócio-cultural e, por fim, exclusão social, delinquência, racismo e por aí adiante. Um ciclo vicioso…

* Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
vascoespinhalotero@hotmail.com

O fenómeno da Expofacic no concelho de Cantanhede

Segundo o sociólogo Carlos Fortuna (2001), costuma usar-se a noção de Cultura Local para se referir à cultura de um espaço relativamente limitado, cujos habitantes mantêm, entre si, estreitas relações interpessoais. Existe nesse espaço um sentimento de pertença relativamente ao ambiente físico, hábitos, cerimónias, símbolos, entre outros que contribuíu para reforçar os elos que ligam os indivíduos a um lugar e a partilha de um sentimento comum face ao passado. Cultura Local será acima de tudo um conceito relacional.

Ora, reportando-nos ao exemplo do concelho de Cantanhede, um estudo recente aponta, como razão primordial para o aumento do sentimento de pertença dos munícipes de Cantanhede relativamente ao seu concelho, um evento que promove as relações interpessoais e trocas culturais: a Expofacic! Este facto acaba, hoje em dia, por não surpreender quase ninguém, mas se recuarmos uns dez, quinze anos facilmente recordaremos que nessa altura o sentimento de pertença dos munícipes relativamente ao concelho de Cantanhede era quase inexistente! Nessa altura existia em muita gente algum desconforto em assumir que era do concelho de Cantanhede e uma rivalidade, por vezes pouco saudável, de várias freguesias para com a capital de concelho.

Então o que é que mudou? Muita coisa, mas um dos pontos mais importantes é que a Expofacic veio construir o tal espaço de partilha comum de costumes, tradições, cerimónias, símbolos das várias freguesias do concelho de Cantanhede que passaram a querer representar-se cada vez melhor (basta ver o cuidado e dedicação na representação dos seus stands, escolas, tascas, grupos folclóricos, artesãos, etc) e, simultaneamente, também saber mais sobre as outras! Os outros são, afinal de contas, os vizinhos, com quem temos necessidade de interagir, de nos inter-relacionar e ouvir.

Na verdade, o preconceito ou a rivalidade doentia existiam, não por se conhecer realmente e não se gostar ou concordar, mas sim, porque não se conhecia sequer e se tinha receio de que outros fossem melhores, quando na verdade eram apenas diferentes e ainda bem! Partia-se do pressuposto de que não se gostava, quando muitas vezes nem sequer se conhecia. Sejamos honestos, quantas vezes não dissemos ou ouvimos dizer: “nós pensávamos que o pessoal daquela terra era arrogante e antipático, mas conheci pessoas de lá que são muito boas e que me trataram muito bem; talvez, afinal, nós tivéssemos exagerado, porque na verdade nem sequer os conhecíamos”?

Em suma, com a Expofacic as gentes do concelho passaram a conhecer-se. Existe agora um orgulho na diversidade e respeito que reina na cultura de cada freguesia e entre freguesias, tendo transformado este evento e, consequentemente, o concelho de Cantanhede cada vez mais numa verdadeira “aldeia global local”! Sendo que este fenómeno assenta, não na produção de homogeneidade (no forçar a existência de uma só cultura, como sucede na globalização “americanizada”…), mas sim na nossa familiarização com uma maior diversidade, com um leque cada vez mais amplo de culturas locais. Aqui o nosso concelho dá o exemplo ao mundo! Se a rivalidade cultural saudável se mantém (e ainda bem porque é sinal de longa vida para todas as tradições), já a rivalidade doentia e preconceituosa vai felizmente desaparecendo.

Neste sentido permitam-me até estabelecer uma analogia entre dois eventos distintos, mas com consequências algo semelhantes no que ao aumento de um sentimento de pertença diz respeito: o Euro 2004 para os portugueses e a Expofacic para todos os habitantes do concelho de Cantanhede. Com a vantagem de a Expofacic ocorrer todos os anos!

* Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
vascoespinhalotero@hotmail.com

Entre o Adamastor e D. Sebastião: a nossa Inovação

Nos exigentes tempos que correm torna-se uma tentação o descarregar das culpas de atrasos de desenvolvimento ou fracassos profissionais em bodes expiatórios, quando, na verdade, muitos dos problemas são estruturais e só se podem resolver com as pessoas e pelas pessoas! Como? Ouvindo-as e “traduzindo” as suas mensagens em propostas de melhoria concretas! Parece utópico ou mesmo ingénuo, mas só assim se consegue planificar e mobilizar em conjunto. Pois se apenas planificarmos, as coisas não passam do papel. Se apenas mobilizarmos, as coisas são meramente “desenrascadas”…

Por outro lado, com figuras “sebastiónicas” (“isto só correu bem por causa dele”) ou, no lado oposto, diabolizações “adamastorianas” (“isto só correu mal por causa dele”) nem se planifica, nem se mobiliza…

Tentação mais fácil ainda se torna o descarregar da nossa frustração, pelo ponto a que chegou o panorama nacional, na suposta incapacidade crónica dos trabalhadores portugueses (especialmente funcionários públicos e trabalhadores por conta de outrem), generalizando de forma leviana e perigosa, mas, por vezes, bem aceite numa qualquer discussão de café ou comentário televisivo…

Coloca-se em causa o seu desempenho, muitas vezes com verdade, esquecendo, porém, em especial a grande maioria dos líderes do nosso país, o potencial crítico desaproveitado que estas pessoas possuem e que muitas vezes as empurra para a frustração e o “deixa andar”. A reacção ao silêncio no mundo do trabalho surge de várias formas: uns acomodam-se, outros trabalham ainda mais, alguns um pouco de ambos, outros nem uma coisa, nem outra!

Que soluções? Se o conceito de inovação está na moda, porque não traze-lo para o dia-a-dia de trabalho? A oportunidade está ali mesmo ao lado: o maior potencial de inovação das organizações! Atentem líderes das nossas organizações: para se tomar decisões chave é mais fácil e eficaz ouvir, delegar, responsabilizar e apostar do que controlar, fechar, silenciar… Deixemos os nossos recursos humanos inovarem, “inventarem” e aplicarem, de forma organizada e sistemática (não só de vez em quando…). Numa organização de sucesso recorre-se às ideias que provêem da mistura da experiência acumulada dos mais velhos com os conhecimentos actualizados dos mais novos e, atenção, independentemente das funções exercidas, sejam estas mais operacionais, de gestão ou mais técnicas!

Há que lembrar que as grandes coisas foram sempre decididas em grandes reuniões com abertura à análise e propostas dos intervenientes! Quer estejemos a falar dos grupinhos de trabalho de alunos na escola, das equipas de trabalho de uma empresa ou de um clube recreativo!

Basta olharmos para a História e revermos como, no século XV, os navegadores portugueses abriram a porta ao mundo, trabalhando em equipas multidisciplinares com gente de diversas formações e experiência (cartógrafos, geógrafos, arquitectos, carpinteiros, entre outros) que tinham permanentemente de planificar e mobilizar. Porque não repetirmos esta receita mais vezes?...

vascoespinhalotero@hotmail.com

O Estudante Adamastor

Constatam-se facilmente, no senso comum nacional, as vulgares acusações que se fazem aos estudantes, mais frequentemente aos universitários (porventura resultado de uma analogia ao passado elitista do ensino universitário nos tempos ditatoriais), de serem pouco amigos do estudo e grandes companheiros das greves (no sentido do “não querer fazer nada”), praxes (no sentido do prazer da humilhação do caloiro, decorrente da posse do estatuto de “doutor”), irreverência (no sentido que “querem tudo, porque são jovens, depois aprendem”), farras e bebedeiras (crê-se que será uma prática exclusiva destes estudantes, “fazendo-se de conta” que só eles bebem no nosso país…).

Estas construções sociais são, nada mais, nada menos, que preconceitos fortemente enraizados numa parte da população, que desconhece uma realidade que infelizmente na verdade nunca viu (não tendo, assim, oportunidade para disconfirmar estas crenças) e que toma o todo pelas partes, caindo na tentação fácil e pouco rigorosa da indução. Serve-nos a metáfora do “Adamastor para os navegadores portugueses”, ninguém o tinha visto, mas todos já sabiam perfeitamente que existia e que era medonho…

Passeia-se do particular para o geral (“aquele estudante está bêbado, todos os estudantes são bêbados) com uma irresponsabilidade consentida e mesmo incentivada socialmente por uma espécie restrita de moral, numa clara falta de tolerância e de respeito que consiste na ideia de que “apenas a nossa ideia de moral é que está certa”. É claro que existem excessos condenáveis ao nível de alguns comportamentos de jovens. São pelo menos mais visíveis num fenómeno de atenção selectiva, mas obviamente também existirão até mesmo nas fracções supostamente mais íntegras da sociedade actual, sendo que estes últimos serão mais facilmente cobertos pela capa de silêncios impostos, pois “é uma vergonha se se sabe”.

A verdade é que há espaço para muitas coisas na vida dos jovens e de todos nós. Se é verdade que no processo de maturação é “com as cabeçadas que se aprende”, actuar numa condenação a priori, lembra um pouco o conceito de “guerra preventiva”! Não é escondendo e fortificando os medos que se fornece autonomia e responsabilidade a um jovem, neste caso ao estudante, que se arriscará a seguir a sua vida receando exacerbadamente encontrar as “armas de destruição massiva”! Defender ser degradante, por não se compreender a sua cultura, aquilo que poderá ser natural e mesmo construtivo (dentro dos limites da ética que se aprende pela consciencialização que trazem as experiências e a sua análise/prevenção crítica) será ofuscar outras facetas, outras aprendizagens, outros contributos, outras lutas…

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O significado da luta dos estudantes

Uma luta que está na ordem do dia consiste na contestação aos aumentos dos montantes das propinas universitárias, levados a cabo pelo actual governo e assumidos por um ministro que entretanto se demitiu. Dizem os estudantes que pelas razões erradas, pois o motivo certo seria a desresponsabilização que orquestrou para passar a “batata quente” para os Senados das universidades, que, entretanto, se viram sem as verbas básicas para o seu funcionamento. Razões erradas ainda que justas, pois será no mínimo ridículo e fonte de indignação verificar a influência do “nacional porreirismo” na falta de ética revelada pelos dois ministros demissionários em causa. Este tipo de atitudes revela uma cultura de base em crescendo em alguns elementos da classe política portuguesa, comprometida com os lobbies e influências importantes, em que parece ser bastante tentadora a oportunidade de acautelar os seus interesses pessoais.

Lembra-nos certamente um doente com dupla personalidade a comum ostentação da bandeira da estabilidade como veículo que poderá ser manipulado para um outro resultado: o conformismo e a permissividade para com este tipo de aproveitamentos! Ora, estas são duas características que não sobrevivem seguramente nos movimentos estudantis portugueses. A lufada de ar fresco que constitui a sua luta é exemplo, não de arrogância ou radicalismo, mas sim de vontade de melhorar o que pode e deve ser melhorado! São acusados de não querer pagar o que o país pagaria com um aumento de impostos, esquecendo quem o afirma o que paga o agregado familiar e não falamos só de propinas, há também as deslocações, o alojamento (pelo qual, por vezes, apenas podem sonhar com o recibo…), livros, alimentação, contas de água, luz e gás, etc. Num ano lectivo em que ainda por cima os preços do alojamento nas residências e a alimentação nas cantinas aumentaram drasticamente, é só fazer as contas…

Os estudantes falam sim de coisas como: qualidade docente, saídas profissionais, apoio social, espaços dignos, cultura, enfim, ensino público gratuito e de qualidade! Tal pretensão é referida na constituição portuguesa e para quem pensar de forma irónica “isso é que era bom” basta reflectir um pouco no facto de esta ser a realidade nos países com mais qualidade de vida do mundo, como são a Finlândia, Noruega ou a Suécia! Pormenores como investimento, inovação, investigação científica e rigor nas receitas fiscais ajudariam tanto… Quanto à insinuação da “partidarização” destas reivindicações é preciso esclarecer que a luta dos estudantes não é contra o governo, é contra a actual política para a educação, pois os estudantes nem pensam festejar a saída do ministro se a sua política continuar a ser seguida…

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Big Brother: uma interpretação psicológica

No último artigo que escrevi referi-me à definição e às características distintivas de um grupo ou seja a “nascença” de um grupo. Foram indicados e discutidos alguns exemplos de possíveis grupos. Chegámos à conclusão de que, por exemplo, uma equipa desportiva poderá constituir um grupo. Mas será que um grupo se mantém constante ? Será que os elementos que o compõem se “dão sempre bem”, será que se “lembram” sempre dos objectivos a atingir, será que nunca têm vontade de “abandonar o barco” ? Neste âmbito será pertinente abordarmos a temática do desenvolvimento grupal.

O psicólogo Roger Muchielli defende que o desenvolvimento de um grupo se trata sempre de um processo linear, constituído por quatro estádios diferentes e sucessivos: Estádio Nominal, Estádio Fusional, Estádio Conflitual e Estádio Unitário. Tendo em vista uma clara explicação e descrição de todas estas fases, que melhor “ajudante” e ponto de referência poderia eu ter, senão o programa da televisão portuguesa que “ninguém vê”, mas que acerca do qual toda a gente comenta e “espreita” (claro, só de vez em quando...): o Big Brother!

O Estádio Nominal caracteriza-se por um reduzido sentimento de pertença, por um medo de implicação (Verónica da 2ª edição disse “...eu não me vou envolver com ninguém dentro da casa...”; a Sofia da 2ª edição ficava constantemente no quarto refugiada; o Ricardo da 1ª edição andava sempre com óculos escuros; o Zé Maria da 1ª edição tratava das galinhas). Verifica-se um refúgio dos membros do grupo nas suas “máscaras sociais” e um respeito pelos estatutos que os elementos apresentam fora do grupo (o Bruno da 2ª edição andava sempre com o seu lenço típico dos motards; o Marco da 1ª edição com o material de kickboxing; todas características de grupos a que pertenciam antes de entrarem na casa e que lhes confere uma protecção, um estatuto, uma “máscara social”). Existe uma percepção vaga e difusa do alvo e pouca atenção sobre ele (as tarefas que tinham que realizar para ganhar dinheiro eram encaradas quase como um passatempo novo; até se esqueciam que aquilo era um concurso de tão pressionados e “abandonados” que estavam).

Segue-se o Estádio Fusional que se caracteriza pela prevalência do sentimento de estar junto, desenvolvimento de elevada coesão, de uma solidariedade nova (surgem as “máscaras da boa vontade”, da implicação afectiva; “Gosto tanto do pessoal”, “Eles são todos tão espectaculares”). Verifica-se o abandono dos estatutos máscara e o desejo de igualdade de direitos; inibição das respostas individuais e originais; há uma pressão para a conformidade (quem não alinha torna-se um bode expiatório como o Zé Maria da 1ª edição) e para as decisões unânimes (“na boa, não há problema, fazemos todos juntos”). Existe uma euforia colectiva (no programa até tomaram banho nus!), sendo que o alvo é secundarizado (os concorrentes desleixavam-se um pouco na realização das tarefas para ganhar dinheiro; ninguém queria ganhar o concurso!).

De seguida, surge o Estádio Conflitual que comporta uma prevalência de relações conflituosas, tensões perante a necessidade de funcionar para realizar tarefas e face a diferenças reais (célebre pontapé do Marco à Sónia, na 1ª edição, quando ensaiavam a peça de teatro). Verificam-se decepções, retraimentos e conflitos (discussões entre a Verónica e a Liliana na 2ª edição, entre o Pedro e o resto do grupo). Poderá haver partição em dois ou mais sub-grupos (divisão entre o pessoal do quarto rosa e o pessoal do quarto verde, na 3ª edição), luta aberta pela liderança (entre o Pedro e o Lourenço na 3ª edição, entre o Marco e o Zé Maria na 1ª edição) e contestação dos papéis desempenhados (discussões para ver quem fazia o jantar, pois eram sempre os mesmos). Refugiam-se em regras formais, rígidas que acentuam mais as “guerras” e tensões (quando estavam alguns concorrentes lesionados precisamente na altura em que tinham que efectuar x quilómetros numa prova denominada de Volta a Portugal em bicicleta). Começa aqui a haver uma tensão relativamente ao alvo (intolerância face ao não atingir dos patamares mínimos para a realização das tarefas para ganhar dinheiro; começa-se a discutir quem vai ganhar o concurso, as nomeações ou melhor as “conspirações”).

Por último, temos o Estádio Unitário que se caracteriza por uma prevalência de uma eficaz gestão das divergências, uma aceitação do grupo como composição de personalidades diferentes, uma participação activa e uma utilização dos vários contributos. As decisões são tomadas com base, não em unanimidades, mas em consensos, sendo que as posições de cada um são claramente formuladas e as regras são flexíveis. Este estádio é geralmente atingido no final do programa Big Brother, ou será que nunca é atingido?...