segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

Orientação Vocacional adivinha o (In)Sucesso Escolar

No anterior artigo que escrevi, sobre o papel dos pais / encarregados de educação no processo de orientação vocacional dos seus filhos / educandos, sublinhei que não seria necessário que os pais estivessem sempre “em cima do acontecimento”, pois há que demonstrar confiança na responsabilidade dos filhos, supervisionar sem controlar e estar sempre lá, para o caso de a ajuda ou conselhos serem pedidos.

Acima de tudo, seria importante estar presente na fase final do processo para que os filhos / educandos lhes explicassem como tinham sido baseadas as decisões a tomar (ex: na última reunião com o psicólogo escolar e com o filho, nas últimas semanas / meses que antecedem a matrícula, etc).

Por outro lado, se os pais não se envolverem construtivamente neste processo de tomada de decisão dos seus filhos, e não compreenderem o porquê da escolha seguida (seja por desinteresse assumido ou por desinteresse mascarado de “pais liberais e modernos”), poderão estar a passar um “cheque em branco” ao possível insucesso escolar dos seus filhos! É que, em muitos casos, exigem-se notas altas, sem antes se terem preocupado em saber se os filhos estão nas áreas para as quais estão vocacionados!...

Metaforicamente falando, e não esquecendo algumas excepções e flexibilizações naturais: um “Einstein” possivelmente não seria um bom aluno a Português, um “Saramago” possivelmente não apreciaria muito as ciências exactas, tal como um “Belmiro de Azevedo” possivelmente não seria um génio das artes plásticas! Não seria de admirar que as notas destes senhores não fossem espantosas nas disciplinas que mencionei, o que não quer dizer que estas formações sejam inúteis para eles e para os seus percursos profissionais, isto desde que não constituam o principal dos seus currículos!

Vamos lá ver uma coisa: é óbvio que não podemos ser bons a fazer tudo, embora possamos saber um pouco de tudo e sermos mesmo bons numa área específica. E quanto mais um pouco de tudo soubermos, provavelmente, melhor poderemos inovar na nossa área específica (ex: um mecânico que para além da parte prática de carros, saiba também um pouco sobre o seu design, fabrico ou estrutura do seu material).

Recentrando a nossa atenção para a escolha vocacional, se a maior parte das coisas que fizermos forem nesta tal área específica em que somos mesmo bons, é natural que o sucesso escolar e/ou profissional aconteça!


* Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
vascoespinhalotero@hotmail.com

Orientação Vocacional: o papel dos pais e/ou encarregados de educação

Antes de mais, é imprescindível alertar e esclarecer os pais de que não podem simplesmente demitir-se do apoio e compreensão na escolha vocacional dos seus filhos (do género “ele é que sabe, nem quero saber”), nem podem, por outro lado, decidir por eles!

Os pais também não podem ter escolhas definidas à priori, seja em função da moda (“por ouvirem dizer que aquele curso é que é bom”), tradição familiar, notas escolares (“quem tem boas notas vai para Medicina, quem não tem sai da escola e faz-se à vida), futuro salário (“vais para este curso porque aqui é que se ganha bem”). Pois todas estas certezas podem ser abalados com um: “pai, mãe eu não quero ir para isso”!

Não pretendo, de forma alguma, afirmar que estes motivos não sejam válidos para tomar uma decisão vocacional, mas é certo que têm que ser devidamente ponderados em conjunto com o filho e principalmente por ele! A decisão final terá imperiosamente de ser dele! Não se trata de não ouvir a opinião de ninguém, trata-se de poder escolher livremente após ter ouvido.

Mesmo o psicólogo não escolhe ou decide por ninguém! Nenhum psicólogo de Orientação Vocacional lê (ou deve ler) os resultados de testes vocacionais apenas para si, como se de uma “bola de cristal”, que só ele compreende, se tratasse, e depois aponta o destino ou a sina de cada um!

O psicólogo fornece, sim, ferramentas para que o cliente possa fazer uma viagem em que passe a conhecer-se melhor a si e ao mundo profissional. O psicólogo dá a “cana de pesca”, agora que peixe o cliente decide pescar isso não cabe ao psicólogo decidir, cabe apenas aconselhar.

E qual será afinal o papel dos pais / encarregados de educação? Não é necessário que os pais estejam sempre “em cima do acontecimento”, há sim que demonstrar confiança na responsabilidade dos filhos, perguntar “como vão as coisas”, supervisionar sem controlar e estar sempre lá, para o caso de a ajuda ou conselhos serem pedidos. Acima de tudo, é importante estar presente na fase final do processo para que lhes expliquem como foram baseadas as decisões a tomar (ex: na última reunião com o psicólogo escolar e com o filho, nas últimas semanas / meses que antecedem a matrícula, etc).

Uma boa Orientação Vocacional quase sempre aponta o caminho para o sucesso escolar e, mais tarde, profissional da pessoa que ponderou verdadeiramente as suas tomadas de decisão.
Fica a sugestão: primeiro estabelecer as metas a alcançar (“o que quero ser quando for grande”) e depois lutar por elas (adquirir um Método de Estudo eficaz).


* Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional
vascoespinhalotero@hotmail.com

O Psicólogo na Escola

Por vezes as escolas que requisitam a colocação de um psicólogo criam expectativas ultra-elevadas, vêem-no como um “salvador” que resolverá todos os problemas, principalmente aqueles ligados aos alunos indisciplinados, num ápice! Porém quando este promove medidas de longo prazo que exigem um trabalho contínuo de base envolvendo todos os sectores intervenientes do meio escolar (ou seja quando afinal se dão conta de que ele não traz consigo uma “varinha mágica”!) rapidamente a desilusão e a desconfiança se instalam. Será então importante esclarecer que a acção do psicólogo não se limita a “passar testes”, nem a tratar dos “casos difíceis” para ali “encaixotados”.
Ou seja não se resume a consultas de orientação vocacional pontuais em que se utilizam unicamente métodos de avaliação psicométrica, nem a acompanhamento e/ou encaminhamento de casos clínicos. Este estereótipo é comum, mas inaceitável! Vamos lá ver uma coisa: o psicólogo não vai resolver todos os problemas da escola (pode, inclusivamente, descobrir outros até então desconhecidos), vai sim contribuir para a sua identificação e resolução, o mais cedo possível, num processo contínuo de prevenção/intervenção primária (com a população em geral), secundária (com populações específicas e/ou de risco) e terciária (casos individuais).

Segundo a minha perspectiva o conceito de educação poderá definir-se como o processo de construção das “hipóteses” de sermos nós mesmos! Isto implica toda uma revalorização das potencialidades do nosso percurso de vida com todos os seus “preciosos” obstáculos que constituem as nossas vivências. Assim, a dificuldade e o erro passam a ser vistos como oportunidades de aprender e enriquecer os conhecimentos e o ofício.
A diversidade socio-cultural constitui-se como a “gasolina” deste processo sendo esta aproveitada e explorada para o nosso auto-apetrechamento. Esta abordagem encara a informação, discussão e negociação construtivas como factores desenvolvimentistas de consciencialização social, cultural e profissional. Ora, seguindo esta linha de orientação chegamos ao real papel do psicólogo! Este caracteriza-se por ser um catalizador de relações, aprendizagens e escolhas essenciais num meio escolar inclusivo onde se recebam, ou melhor, se conquistem “competências de vida” num processo heurístico e autónomo dos alunos visando a sua inserção e orientação no mundo do trabalho.
Especificando um pouco mais, o psicólogo poderá ter uma intervenção directa com os professores no sentido de os aconselhar, ajudar, fornecer outras perspectivas e modos de lidar com diferentes problemáticas e desafios como são, por exemplo, os resultantes da nova estruturação curricular. Pretende-se promover a planificação e a flexibilidade prática nos métodos de ensino-aprendizagem e nos conteúdos programáticos adaptados a cada escola, grupo-turma, e nalguns casos, a cada aluno.
Relativamente ao pessoal não docente, a promoção de acções de formação ao nível das relações interpessoais revela-se importante sendo, muitas vezes, compreensivelmente desejada pelos próprios funcionários. No que diz respeito aos alunos, para além das sessões de orientação vocacional (individual ou em grupo), poderão realizar-se semanas de informação escolar e profissional, viagens a instituições profissionais locais, actividades de integração de novos alunos, programas de prevenção para a saúde (ex: educação sexual, alcoolismo, etc) e muito mais, dependendo apenas de dois factores: vontade e criatividade! Os pais e e/ou encarregados de educação poderão ser chamados e sensibilizados para as suas potencialidades educativas, embora eu entenda o quanto será difícil trazê-los à escola, mas esta “aliança” será porventura a mais espectacular forma de intervenção e orientação com os seus miúdos!
Em relação aos serviços especializados de apoio educativo, o modelo seguido é cooperativo, pois requer-se o trabalho de equipa (psicólogos, assistentes sociais, professores de apoio educativo, entre outros). Em termos muito gerais, posso dizer que esta equipa auxilia desde alunos com deficiências (quer intelectuais, quer físicas) a alunos sobredotados, sendo a tónica dominante as dificuldades de aprendizagem. A título de exemplo, posso realçar a possibilidade da elaboração de um currículo alternativo, de programas de estudo acompanhado, de promoção cognitiva, entre outros para o aluno com necessidades educativas especiais sem, no entanto, o separar do seu grupo-turma de referência.

Muitas vezes todo este trabalho “sombra” realizado pelo psicólogo é subvalorizado, sendo até utilizado por aqueles que se julgam capazes de o “avaliar” para justificar a sua própria falta de empenhamento e envolvência no meio escolar! Numa sociedade como esta em que vivemos que tão facilmente cultiva a apatia, o desinteresse e a resignação como virtudes compreensíveis, a escola deverá inequivocamente constituir-se como “despertador” de todo o potencial humano.

O Fantasma da Avaliação de Desempenho

No dia-a-dia ouvimos dizer que as pessoas no trabalho não querem mudar, não se querem flexibilizar e, mais importante que tudo, não querem ser avaliadas no seu desempenho! Porém, através da análise de estudos realizados e observações empíricas, a realidade mostra-se bem diferente em termos gerais (existem naturalmente e como é óbvio excepções). Pelo contrário, as pessoas anseiam por obter feedback construtivo do seu trabalho, quer venha de colegas, superiores ou clientes! E para os mais cépticos: sim, estamos a falar também de funcionários públicos e trabalhadores por conta de outrem!

Por outro lado, é verdade que as pessoas sentem receio da avaliação, ou melhor, de como esta é feita e como poderá ser (mal) aproveitada posteriormente: favoritismos pessoais, limitação de progressão de carreiras devido a cortes orçamentais ou o simples receio de dizerem que estamos a trabalhar mal quando, nas condições possíveis, até demos o nosso melhor ou não…

Ora, talvez o problema não seja a avaliação, mas sim o conceito ou a própria palavra Avaliação (pois ao ouvi-la logo pensamos em distinções, notas, números, promoções, punições, algo vazio que depois não ajuda realmente no dia-a-dia de trabalho e só traz mais “chatices” e conflitos).

Muito bem, tentemos fazer o seguinte: por momentos substituamos a palavra a avaliação por ajuda. Assim, em vez de avaliação de desempenho passaríamos a ter ajuda ao desempenho. Se este for o conceito para o tal feedback construtivo do seu trabalho (pelo qual as pessoas anseiam) talvez seja um bom início, especialmente se esta ajuda ao desempenho for um fim em si mesma e não um meio para restringir carreiras (o que leva forçosamente à descrença e “farsa” no processo de avaliação/ajuda ao desempenho…).

Sejamos francos, o problema da avaliação de desempenho é o eterno fantasma do que poderá ser feito com uma má utilização destes processos! Aqui a desconfiança, a intriga e o medo vencem sobre a autenticidade e a abertura construtiva. Se há gente que com isto se dá bem, a grande maioria sofre com o silêncio imposto, reagindo de várias formas: uns acomodam-se, outros trabalham ainda mais, alguns um pouco de ambos, outros nem uma coisa, nem outra! Mas o “faz de conta” mantém-se…

Como, uma vez, um meu caro amigo me disse: “A resolução de problemas é dificultada pela criação de outros problemas durante o processo de resolução dos primeiros”!

Ora, na tal avaliação/ajuda ao desempenho, há que reconhecer, sem demagogias, que a avaliação qualitativa é a verdadeira avaliação. É “aquela que fica”, provavelmente a mais justa, que evita muitas vezes os ressentimentos ou os vazios elogios numéricos nas pautas que a avaliação quantitativa sem conteúdo dá…

Afinal de contas, o que nos enche mais de orgulho: ver numa pauta que tivemos um 17 ou ouvir o nosso chefe ou cliente enaltecer a nossa capacidade de trabalho, dedicação e “amor à camisola”?... E o que nos dá mais vontade de melhorar: um cinzento 8 na pauta ou elogios específico a tarefas bem desempenhadas conjugados com críticas construtivas a outras que nem tanto, seguidos de uma questão pensada em conjunto (avaliador e avaliado): do que precisamos para fazer melhor?

vascoespinhalotero@hotmail.com

O Dia da Inspecção

“Oh não ..., tenho de ir à inspecção militar!” Este foi concerteza um pensamento que atravessou a mente de muitos jovens, residentes no Concelho de Cantanhede, entre os quais me incluo, após verificarem que o seu nome constava na convocatória para o referido “exercício”. A imagem estereotipada de rigor e exigência (conceitos muito em voga para as bandas “educativas” de S. Bento) da “tropa” atemorizava-nos timidamente (“Eu cá não tenho medo!...”). Mas ninguém queria lá ficar e eis que chega o Dia D!

A romaria iniciava-se. Destino: Quartel da Ajuda em Lisboa. Como nos sentíamos? Bem, como miúdos que iam pela primeira vez à escola! Nunca as deficiências físicas ou psíquicas foram tão abençoadas como naquele dia. “Trouxe um atestado, assim safo-me!” No entanto, eu acalentava a secreta esperança de encontrar um pouco a desmistificação deste “Adamastor”. Seria possível que o serviço militar fosse uma aventura enriquecedora, uma escola de vida (era disto que o meu avô me falava) em que, para além das competências básicas de treino militar e de sobrevivência, pudessem ser incrementados valores como a solidariedade, ajuda à comunidade e a liberdade de expressão. Afinal de contas estes foram os pilares que suportaram toda a inestimável intervenção do Movimento das Forças Armadas no 25 de Abril de 1974! Ora, nos tempos que correm, em que tais utopias passaram de moda, a realidade revelou-se tão hilariante quanto cruel. A escola de vida que ansiava encontrar constituía-se, pelo contrário, como uma escola do marasmo, da inoperância e do autoritarismo desmedido.

O tempo de serviço daqueles homens era dedicado a difíceis, arriscadas e valorosas missões de apoio à sociedade como... jogar uma futebolada no quartel, cortar a relva com precisão geométrica, descansar e ver televisão no bar, sem menosprezar a mais importante das missões: disparar frases de ordem para os inspeccionados! Quando se lhes perguntava: “Por favor onde é a comissão de inspecção?”, respondiam: “Façam uma fila!” Houve quem estabelecesse o paralelo entre esta arrogância e os rituais mais agressivos da praxe académica. Concordei em parte...

Penso não ser uma crítica desajustada referir que existe um défice comunicativo e assertivo nalguns dos nossos oficiais. Estas competências de resolução de problemas e apoio interpessoal deveriam ser adquiridas, não apenas de uma forma esporádica ou autodidacta, como sucede com as honrosas excepções. Estes factores são peças fundamentais em situação de guerra! As regras são necessárias, são benvindas e a disciplina e a autoconfiança indispensáveis, sem dúvida! Agora a dominação, pelo simples prazer de maltratar e de mostrar o “lobo” que há em nós, é ridícula. Dá mesmo para rir, acreditem!

Devo, justamente, referir que se deve ter em conta os condicionamentos financeiros e logísticos de toda a estrutura militar. Há pessoas com potencialidades, capazes de movimentar construtivamente toda esta massa, mas que de uma forma ou de outra têm as “mãos atadas”! Este facto faz-nos reflectir sobre as políticas orçamentais seguidas. Damo-nos conta dos milhões gastos em aviões F-16, pré-sucata, em contraste com a “pré-historicidade” dos exames psicotécnicos utilizados nesta inspecção e com a falta do pequeno incentivo económico (não há gasolina para a maior parte dos meios de transporte) e formador (os homens não têm outra alternativa senão ficar “presos” no quartel a “brincar às guerras”!).

O serviço militar não obrigatório é um avanço óbvio e inevitável, porém esta compactação em termos de pessoal deverá também ser acompanhada por uma renovação de mentalidades e de políticas de intervenção social. É possível, com a nossa voluntariedade tão portuguesa, flexibilizar e diversificar as características de um exército, que tanto poderá colocar tropas de intervenção numa zona de guerra como na limpeza das matas ou no apoio a pessoas desfavorecidas.

No meu Tempo

Pais e filhos jovens e/ou adolescentes têm, de vez em quando, confrontos que são, não raras vezes, comuns. Hoje em dia fala-se mais dos problemas dos jovens e, paradoxalmente ou não, o trabalho dos pais parece cada vez mais exigente, embora possa ser facilitado através do esclarecimento de cinco equívocos, como aponta o psiquiatra Daniel Sampaio, na sua obra “Inventem-se Novos Pais”.

O primeiro equívoco corresponde ao esquecimento das transformações que a família tem experimentado. Noutros tempos, as palavras dos pais determinavam quase tudo: quando os filhos saíam, estudavam e até com quem namoravam! Quem tratava dos miúdos era a mãe, pois o pai só intervinha com os indispensáveis açoites. Os temas “difíceis” eram camuflados e os problemas eram “enterrados”, pois “parecia mal”. Ora, a família actual é, em termos gerais, diferente, mais aberta e com riscos mais visíveis. As mulheres, agora com maior ocupação profissional, continuam a tratar dos filhos, mas com maior colaboração dos homens. Os pais tornaram-se mais sinceros para com os filhos e ouvem frontalmente críticas ao seu comportamento!...

Um segundo equívoco prende-se com a velha crença: para lidar com a nova geração é preciso constantemente recordar a adolescência dos pais. É preciso ter em atenção que os adolescentes de hoje são naturalmente diferentes. Os jovens de agora são mais capazes de discutir e enfrentar os problemas (é verdade, de os criar também...), embora até passem mais tempo sob a alçada dos pais, dado o aumento da sua escolaridade (antigamente os filhos saíam de casa para trabalhar bem mais cedo). Esquecer isto e persistir na célebre frase “No meu tempo...” para repreender é contribuir para dificultar o diálogo com os filhos…

O terceiro equívoco diz respeito ao que se entende por normal e anormal (patológico, doentio) na adolescência. Todos os dias vemos associar, erradamente, turbulência juvenil a perturbação mental e/ou delinquência. Estudos afirmam com segurança que apenas 20% dos adolescentes possuem perturbações psicológicas sérias. Uma tempestade num copo de água diria.

O quarto equívoco será a ideia de que os pais e os adolescentes devam estar de acordo e ter a mesma visão do mundo. Isto foi, é e será sempre impossível! Aliás isso seria sim uma grande “seca”, que transformaria em meros “robots” os nossos homens e mulheres de amanhã! É natural que um pai de quarenta anos e um filho adolescente tenham ideias opostas sobre divertimentos ou horas de deitar por exemplo. Mas é desejável que conversem, discutam e cheguem a um equilíbrio nas suas opções. Nas famílias em que os filhos e pais lutam cada um por si, alguém acaba por ceder, não porque foi levado a concordar, mas sim para não agravar o “ambiente”. E depois se algo corre mal ouve-se dizer “tu é que és o culpado”…

O quinto equívoco consiste em não entender que durante a adolescência os filhos deixam de pertencer aos pais. Durante a infância, é fácil dar-lhes ordens, controlar-lhes o dia-a-dia. Na adolescência, isso já não funciona. Os filhos entregam-se mais aos amigos, namorados ou festivais rock!... Para os pais é doloroso sentir a diminuição do seu poder, mas é fundamental que compreendam qual o seu papel nesta fase: o de estar atentos, de mobilizar sem dirigir, de apoiar nos fracassos e incentivar nos êxitos. O segredo não é controlar, é sim simplesmente supervisionar e estar lá quando é preciso!

vascoespinhalotero@hotmail.com
* Psicólogo do Trabalho e das Organizações / Orientação Vocacional

Como criar espírito de grupo?

No meio desportivo nacional é frequente ouvir técnicos, desportistas ou adeptos referirem-se à necessidade de criar um bom espírito de grupo na equipa da sua simpatia, no sentido de construir um grupo coeso que permita alcançar os objectivos previamente delineados. Nos meios de comunicação social é comum o uso de expressões referindo a existência de um “bom balneário”, sendo esta a chave de muitos êxitos, nomeadamente em equipas que não tenham elementos de grande gabarito. No entanto, tais expressões ou conclusões não são exclusivas do meio desportivo. Verificamos também a sua presença, utilidade e aplicação noutros contextos, tais como: organizações/empresas, escolas, partidos políticos, etc. Também aqui se reconhecem claros e óbvios reflexos a nível do aumento da qualidade, rendimento, produtividade e satisfação, quer para o indivíduo, quer para o grupo/instituição em que está inserido. Afinal de contas, o povo unido jamais será vencido! A expressão científica correcta será Coesão Grupal e pode ser definida como o conjunto de forças que unem os membros entre si e com o grupo. Esta poderá ser verificada e medida pelo grau de assiduidade, pelo querer estar no grupo, pela pontualidade, pelos “sacrifícios” feitos, etc.

Como se cria? Bem, a fomentação de Coesão num Grupo é associada por alguns à “mística”, por outros ao “pulso” de uma estrutura directiva ou ainda, numa perspectiva menos romântica, aos prémios de produtividade atribuídos (individuais e colectivos). Porém, facilmente constatamos a dificuldade em delimitar exactamente os factores que a promovem. Ou seja, não se sabe bem como “unir o pessoal”, apesar de muitas vezes isso ser pretendido e conseguido! Neste artigo tentarei ajudar a “decifrar este enigma”, tendo por base os conteúdos científicos mais recentes. Os referidos factores encontram-se divididos em extrínsecos (ligados ao meio que envolve o grupo) e intrínsecos (ligados especificamente ao grupo e aos seus elementos).

Como factores extrínsecos apontam-se entre outros o tamanho do grupo e a sua diversidade geográfica, assim, grupos pequenos, que contêm elementos que vivem perto uns dos outros, serão mais coesos (ex: população de uma aldeia versus população de uma cidade). Uma maior homogeneidade dos membros do grupo promove mais facilmente uma forte coesão, dado terem mais características, estilos de vida ou modos de pensar em comum (ex: grupos de jovens são mais unidos se só forem compostos mesmo por jovens e não por mais pessoas mais velhas). A existência de um sistema de recompensas, para objectivos colectivos, também proporcionará um aumento da coesão (ex: prémios para os jogadores se a sua equipa vencer o campeonato), assim como o facto de existir e/ou se “espicaçar” rivalidades, aproveitando a competição com outros grupos rivais (ex: o que seria do Sporting se não existissem Benfica e Porto; quem não se lembra da guerra Porto–SIC ou do “quem não é por nós é contra nós”?). “Queridos inimigos” tão bem preservados pelas declarações incendiárias de alguns dirigentes...

Como factores intrínsecos (de ordem socio-afectiva) pode referir-se, em primeiro lugar, uma clara e consensual definição de um fim/alvo/objectivo comum, não deixando de ter em conta os diferentes interesses de cada elemento e respeitando as opiniões quer das maiorias quer das minorias (ex: jogadores elegerem, após debate onde todos tiveram oportunidade para darem a sua opinião à vontade, a conquista do campeonato como objectivo máximo). Será também importante a satisfação das necessidades de cada elemento, na medida do possível, de modo a que possam atingir, para além do fim/alvo/objectivo comum, também os seus objectivos pessoais (ex: jogador que quer ganhar o campeonato e o prémio de melhor marcador). O alto estatuto do grupo (o facto deste ter um difícil acesso, de ser recomendado, invejado e elogiado socialmente, a tal “dream team”) incentiva o orgulho de se lhe pertencer (ex: altas médias de entrada para cursos superiores). Já dizia a sabedoria popular “Junta-te aos bons, serás como eles; junta-te aos maus, serás pior que eles”. È também fulcral a identificação dos membros com a cultura do grupo, normas e valores característicos e particulares (ex: a “mística” da Selecção Nacional). A existência de afinidades inter-pessoais, os elementos “darem-se bem”, é também factor de coesão, destacando-se aqui as actividades extra-profissionais como facilitadores destas ligações (ex: uma equipa de futebol ir passear de bicicleta, ao teatro, ver o concerto da banda de um dos membros, etc). Os tipos de actividades do grupo influenciam também a sua coesão, na medida em que quanto mais atractivas - que não é sinónimo de não se fazer nada ou de só se realizarem tarefas fáceis - maior satisfação trarão (ex: existir conciliação entre treino físico e convívio inter-pessoal numa pré-época de uma equipa desportiva). Por último, os sucessos obtidos pelo grupo também aumentam a coesão, especialmente se obtidos pela força do conjunto (ex: uma equipa que vá ganhando jogos importantes com muita entre ajuda, mesmo sem jogar bem). Não é verdade que em equipa que ganha não se mexe?